THOMPSON, Paulo (1935-). A voz do passado - História Oral. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992. 388 p.; 21 cm.
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Citações...
p. 11
"instigar os historiadores a se indagarem sobre o que estão fazendo
e por quê. A reconstrução que fazem do passado baseia-se
na autoridade de quem? E com vistas a quem ela é feita? Em suma, de quem
é A voz do passado?"
p. 18
"Um dos aspectos mais polêmicos das fontes orais diz respeito a sua
credibilidade. Para alguns historiadores tradicionais os depoimentos orais são
tidos como fontes subjetivas por nutrirem-se da memória individual, que
às vezes pode ser falível e fantasiosa. No entanto, a subjetividade
é um dado real em todas as fontes históricas, sejam elas orais,
escritas, ou visuais. O que interessa em história oral é saber
por que o entrevistado foi seletivo, ou omisso, pois essa seletividade com certeza
tem seu significado. Além disso, este século é marcado
pelo avanço sem precedente nas tecnologias da comunicação,
o que abalou a hegemonia do documento escrito." (prefácio de Sônia
Maria de Freitas)
p. 19
"Nosso passado é nossa memória, disse Borges." (prefácio
de Sônia Maria de Freitas)
p. 20
"o ameno turismo contemporâneo que excursiona pelo passado como se
fosse mais um país estrangeiro para onde se evadir."
p. 23
"Quanto mais um documento fosse pessoal, local ou não-oficial, menor
a probabilidade de que continuasse a existir. A própria estrutura de
poder funcionava como um grande gravador, que modelava o passado a sua própria
imagem."
p. 28
"O processo de escrever história muda juntamente com o conteúdo."
p. 30 a 31
"Uma coisa é saber que as ruas ou campos em torno de uma casa tinham
um passado antes que ali tivesse chegado; bem diferente é ter tido conhecimento,
por meio das lembranças do passado, vivas ainda na memória dos
mais velhos do lugar, das intimidades amorosas por aqueles campos, dos vizinhos
e casas em determinada rua, do trabalho em determinada loja."
p. 40
"fazer com que as pessoas confiassem nas próprias lembranças
e interpretações do passado, em sua capacidade de colaborar para
escrever a história - e confiar também em suas próprias
palavras: em suma, em si mesmos."
p. 41
"Ela trata de vidas individuais - e todas as vidas são interessantes.
E baseia-se na fala, e não na habilidade da escrita, muito mais exigente
e restritiva."
/
"As palavras podem ser emitidas de maneira idiossincrática, mas,
por isso mesmo, são mais expressivas. Elas insuflam vida na história."
p. 42
"A história local traçada a partir de um estrato social mais
restrito tende a satisfazer-se com menos, a ser uma reafirmação
do mito da comunidade."
p. 43
"A história não deve apenas confortar; deve apresentar um
desafio, e uma compreensão que ajude no sentido da mudança."
/
"muito embora os velhos sobreviventes fossem livros ambulantes, eu não
podia apenas folheá-los. Eles eram pessoas." (George Ewart Evans)
p. 49
"Ao localizar as coisas no tempo, não o fazia com datas do calendário,
mas datava as coisas com acontecimentos físicos... uma inundação."
(Alex Haley)
p. 50
"A memória foi rebaixada do status de autoridade pública
para o de um recurso auxiliar privado. As pessoas ainda se lembram de rituais,
nomes, canções, histórias, habilidades; mas agora é
o documento que se mantém como autoridade final e como garantia de transmissão
para o futuro."
p. 53
"Deixei de lado toda interação com os livros comuns. Se alguma
vez digo coisas que ocorrem em qualquer livro, é em parte para manter
o fio da narrativa de um modo menos complicado."(bispo Burnet)
p. 73
"Depois da conversa com homens de gênio e de profunda erudição,
a conversa com o povo é certamente a mais instrutiva. [..] O que há
para aprender com a classe média?" (Michelet)
p. 75
"não como o conhecido, mas como o conhecível. Para além,
ainda há muita escuridão." (F. W. Maitland)
p. 77
"A autobiografia é a forma mais elevada e mais instrutiva em que
nos defrontamos com a compreensão da vida." (Wilhelm Dilthey)
p. 88
"nem uma história fictícia, nem um relato de um passado morto;
ele [o mito] é uma constatação de uma realidade maior em
parte ainda viva." (Malinowski)
p. 102
"O historiador tradicional, em parte por desconfiar das teorias e preferir
construir sua interpretação a partir de peças individuais
de evidência colhidas onde quer que as possa localizar, é no fundo
um eclético."
/
"um texto histórico baseado exclusivamente em fontes não-documentais,
digamos a história de uma comunidade africana, pode ser mais superficial,
menos satisfatório do que outro, extraído de documentos; mas é
história do mesmo jeito." (Arthur Marwick)
p. 115
"o metalúrgico que gostaria que os nomes dos operários fossem
gravados sobre aquilo que fazem ('Alguém construiu as pirâmides...')
e que, isso não sendo possível, deixam aqui e ali 'um pequeno
amassado (...) um erro, meu erro (...) minha assinatura neles, também'."
(entrevista a Studs Terkel)
p. 137
"Enquanto os historiadores estudam os atores da história a distância,
a caracterização que fazem de suas vidas, opiniões e ações
sempre estará sujeita a ser descrições defeituosas, projeções
da experiência e da imaginação do próprio historiador:
uma forma erudita de ficção. A evidência oral, transformando
os "objetos" de estudo em "sujeitos", contribui para uma
história que não só é mais rica, mais viva e mais
comovente, mas também mais verdadeira."
p. 150
"o processo de descarte, que constitui a contrapartida da seleção,
continua pelo tempo afora. [...] Porém, o descarte inicial é,
de longe, o mais drástico e violento."
p. 153 a 154
"Num mundo em que o meio ambiente está em constante mudança,
a lembrança literal é extraordinariamente desimportante. Dá-se
com a lembrança o mesmo que com o lance num jogo de destreza. Cada vez
que o fazemos ele tem suas características peculiares." (Bartlett)
p. 158
"O verdadeiro objetivo dos sociólogos da história de vida,
ou do historiador oral, deve ser revelar as fontes de viés, mais do que
pretender que elas possam ser eliminadas."
p. 171
"Quanto mais uma pessoa esteja acostumada a apresentar uma imagem profissional
pública, menos provável será que suas recordações
pessoais sejam honestas e francas; por isso é que os políticos
são testemunhas particularmente difíceis. Assim também
os que, por meio da leitura, optaram por uma visão do passado que propagam
profissionalmente - os historiadores e os professores. Eles podem ser as fontes
mais ricas de sugestões, mas também as mais enganadoras."
p. 174
"Uma das mais profundas lições da história oral é
a singularidade, tanto quanto a representatividade, de cada história
de vida. Há algumas delas que são tão excepcionais que
têm que ser gravadas, qualquer que seja o plano."
p. 179
"A natureza da memória coloca muitas armadilhas para os incautos
[...] oferece[m] também recompensas inesperadas para um historiador que
esteja preparado para apreciar a complexidade com que a realidade e o mito,
o "objetivo" e o "subjetivo", se mesclam inextricavelmente
em todas as percepções que o ser humano tem do mundo, individual
e coletivamente."
p. 180
"a maioria das pessoas está menos interessada nos anos do calendário
do que em si mesmas, e [que] não organizam suas memórias demarcadas
por datas."
/
"as memórias são, regra geral, muito falíveis quanto
a acontecimentos específicos e muito iluminadoras quanto ao caráter
e à atmosfera, coisas em relação às quais os documentos
são inadequados." (R. R. James)
p. 182
"Essa condensação na memória de dois eventos distintos
em um constitui fenômeno muito comum."
p. 184
"Os boatos não sobrevivem, a menos que façam sentido para
as pessoas."
/
"A importância do testemunho oral pode estar, muitas vezes, não
em seu apego aos fatos, mas antes em sua divergência com eles, ali onde
a imaginação e o simbolismo desejam penetrar." (Alessandro
Portelli)
/
"aquilo que as pessoas imaginam que aconteceu, e também o que acreditam
que poderia ter acontecido - sua imaginação de um passado alternativo
e, pois, de um presente alternativo -, pode ser tão fundamental quanto
aquilo que de fato aconteceu."
p. 185
"A construção e a narração da memória
do passado, tanto coletiva quanto individual, constitui um processo social ativo
que exige ao mesmo tempo engenho e arte, aprendizado com os outros e vigor imaginativo."
p. 187
"Nenhuma expressão humana, seja qual for, fica de fora de um gênero
literário." (Vansina)
p. 188 a 189
"as vidas dos profetas africanos, por exemplo, podem transformar-se em
mitos no prazo de três anos."
p. 190
"Acima de tudo, consciente ou inconscientemente, o mais provável
é que memórias que são desabonadoras, ou positivamente
perigosas, sejam tranqüilamente enterradas."
/
"É, sempre queremos que isso seja contado, mas, dentro de nós,
estamos tentando esquecer; bem dentro, no mais profundo da mente, do coração.
É instintivo: tentar esquecer, mesmo quando estamos fazendo os outros
se lembrarem. É uma contradição, mas assim é que
é." (Quinto Osano)
p. 191
"para uma comunidade ameaçada, a memória deve, antes de mais
nada, servir para acentuar um sentimento de identidade comum, de modo que episódios
de divisão e de conflito caem no esquecimento."
/
"A descoberta de distorção ou de supressão numa história
de vida, uma vez mais é preciso ressaltar, não é puramente
negativa. Até mesmo uma mentira é uma forma de comunicação."
p. 198
"para os historiadores, eles [bruxos e oráculos] representam o duplo
desafio, profissional e pessoal, de profissões alternativas que manipulam
o passado segundo regras diferentes."
p. 202
"a necessidade de maior sensibilidade histórica ao poder da emoção,
do desejo, rejeição e imitação inconscientes, como
parte integrante da estrutura da vida social comum e de sua transmissão
de uma geração para outra."
/
"não são as técnicas específicas da psicanálise
na interpretação de sonhos o que mais importa, mas sim ter ela
chamado a atenção para o fato de quão impregnado de simbolismo
está nosso mundo consciente."
p. 204
"A própria crença original de Freud na memória total
agora parece mais um desejo fantasioso do século XIX de recapturar o
passado e não tem, certamente, base científica alguma, muito embora
tenha tido tanta influência que a maioria das pessoas parece 'acreditar
que todas as lembranças são potencialmente recuperáveis'."
p. 204 a 205
"A lição importante é aprender a estar atento àquilo
que não está sendo dito, e a considerar o que significam os silêncios.
Os significados mais simples são provavelmente os mais convincentes."
p. 205
"A maioria das pessoas conserva algumas lembranças que, quando recuperadas,
liberam sentimentos poderosos."
p. 208
"Recordar a própria vida é fundamental para nosso sentimento
de identidade."
p. 209
"O fato de cada vez mais se darem conta, não só de que as
pessoas eram úteis à história, mas que também a
história podia ser útil para as pessoas, foi uma das origens principais
do movimento de terapia da reminiscência que se tem difundido tão
surpreendentemente nos últimos anos."
p. 211
"A questão fundamental, porém, foi uma tomada de consciência
cada vez maior da "enorme arrogância", como a denominou Malcolm
Johnson, de profissionais - de classe e geração diferentes, e
de experiência de vida diferente - ao supor que podiam definir as necessidades
de seus clientes sem primeiro compreender o diagnóstico que eles mesmos
faziam da própria condição."
p. 212
"fora autorizado a desenvolver experimentos no uso de imagens para estimular
idosos retraídos a falar e a responder. As primeiras imagens que usou
eram artísticas, mas, depois, descobriu que figuras antigas de cenas
e eventos [...] eram ainda mais eficientes."
p. 213
"o Recall desencadeia um tema de conversa; e uma vez reiniciada a comunicação,
as pessoas se redescobrem como seres humanos."
/
"[que] a reminiscência deixe de ser um evento especial e simplesmente
se torne parte da textura geral da vida". (John Adams)
[Não foram lidos os capítulos de 6 a 9, que se dedicam mais à prática da história oral do que a reflexões sobre memória]
Seleção de citações: Eduardo Loureiro Jr., abril de 2000