Mensagens (de) invejosas
27.maio.2003
Mensagens invejosas. É fácil imaginar a Gisele Bündchen recebendo uma dessas. A Vera Fisher também. A Xuxa, então, deve colecionar impropérios... Mas, eu? Quem sou eu pra despertar a inveja alheia? Não sou famosa. Nunca fui convidada para a Ilha de Caras. Não tenho um corpo digno de capa da Playboy. Não namoro o Leonardo de Caprio. Não moro em uma mansão no Alphaville e nem apresento um programa de televisão. Como eu disse, eu não sou “ninguém”. E achei que, na minha insignificância, poderia usufruir do direito de viver uma vida anônima e tranqüila. Engano meu. Do nada, mensagens raivosas começaram a lotar o meu e-mail.
No começo parecia ser brincadeira de alguma amiga minha. Adjetivos como “chata, boba, feia, gorda” eram os que eu usava quando brigava com as minhas coleguinhas de primário e achei que era exatamente alguma delas, que cresceu comigo, querendo me passar um trote e que daí a pouco se revelaria e nós daríamos boas risadas. Que nada. O teor das mensagens foi só piorando.
O que parecia uma brincadeira de mau gosto virou coisa séria. A pessoa começou a escrever comentários maldosos também sobre minhas amigas e meu namorado. Não satisfeita, começou a falar mal das minhas roupas, do meu jeito, dos lugares que eu freqüento e das minhas ações. Tudo cercado de muita obscenidade e linguagem chula.
Como nada do que a pessoa falava tinha veracidade e como eu não tenho nenhum inimigo — ao menos nenhum declarado — só pude concluir que o autor era alguém com inveja exatamente das coisas que ele criticava. Meu trabalho, minhas roupas, minhas amigas, meu namorado, minha vida.
Tentei ignorar para ver se a pessoa se cansava, mas não surtiu efeito. As mensagens foram aumentando e ficando cada vez mais indecentes, gerando receio e revolta não só em mim, mas também na minha família e amigos. Por ser alguém tão informado sobre a minha vida, uma espécie de obsessão se instalou em mim. Qualquer pessoa que chegasse perto eu já imaginava se não seria a responsável pelo ato, tentando me enganar com amabilidades.
Fui incentivada, então, a tomar providências e foi o que fiz. Busquei na lei os meus direitos e descobri que qualquer pessoa que te ofenda sem razão pode ser processada por injúria ou difamação. Provas eu tinha de sobra. Antigamente, ao enviar cartas anônimas, as pessoas só tinham que se preocupar com as impressões digitais. Na era da informática, essa preocupação não existe mais, porém as pessoas se esquecem que cada computador também tem uma identidade. Um “IP”. E foi através do IP dessa pessoa que eu descobri seu provedor, sua cidade, sua conexão e dei parte na polícia. Pra ser mais exata, dei parte na “delegacia de crimes virtuais”. Sim, quanta modernidade! Essa delegacia já existe...
As investigações ainda estão em andamento. Só sossego quando descobrir o culpado. Mas a tal pessoa não se manifestou mais. Não sei se realmente se cansou. Se é alguém mais próximo do que eu imagino e, ao saber da minha denúncia, se amedrontou. Se arrumou outra pessoa — quem sabe mais famosa — para perturbar a paz. Realmente não sei. Mas só de não ter mais aquele aborrecimento de ligar a internet imaginando de quais novos adjetivos eu seria xingada, já é um alívio.
Fico imaginando como a Gisele, a Vera e a Xuxa lidam com casos assim. Se bem que elas já devem estar acostumadas. Devem deletar sem ler ou até mesmo ter um “assessor para críticas invejosas”. Talvez eu devesse fazer isso. Contratar uma pessoa para responder as ofensas no mesmo nível... ou, talvez, enviá-las para a imprensa. Quem sabe, se por despertar inveja alheia, não me julguem muito famosa e interessante? Seria até compensador... Juro que eu não me importaria em receber um e-mail obsceno por dia, desde que ele me rendesse uma passagem para a Ilha de Caras. Ou, quem sabe, um convite para a capa da Playboy! Eu aceitaria! Se eles me pagassem também uma lipo-aspiração, que me rendesse cada vez mais mensagens de invejosas.
Paula Pimenta
Autora do livro de poemas "Confissão"