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PAULO LEMINSKI
O Saci das Araucárias
João
Acuio
Nascido em 1944 e morto
aos 45 anos, em 1989, Paulo Leminski foi o grande nome da poesia
paranaense e um dos mais instigantes poetas brasileiros da segunda
metade do século XX. Entre uma e outra citação,
João Acuio traça o perfil astrológico do
mais mercuriano dos escritores de Pindorama.
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o
pauloleminski
é um cachorro louco
que deve ser morto
a pau e pedra
a fogo a pique
senão é bem capaz
o filhodaputa
de fazer chover
em nosso piquenique
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Essa é a melhor definição do
poeta, pelo próprio bandido.
Paulo Leminski é um cachorro louco que latia
latim. Fazia poesia como se não fizesse. E tinha o hábito
de prosear em chinês com os chineses das pastelarias daqui
de Curitiba.
Leminski como um bom cachorro, doido por barulho,
fez a cidade de Curitiba acordar durante suas frias madrugadas.
E esta foi a sua maior rebeldia.
Leminski era um ser em trânsito. E onipresente.
Esteve em todos os lugares. Poesia. Conto. Prosa. Biografia. Tradução.
Ensaio. Carta. Resenha. Video-texto. Música popular. E o
escambau. Este polaco mulato, como ele gostava de se chamar, acrescentou
o seu ponto onde não era chamado. Como todo bom filho de
Saci.
Paulo Leminski nasceu em Curitiba, Paraná,
às 19h10, no dia 24 de agosto de 1944. Quando se vê
o mapa de nascimento do Paulo, leva-se um susto. Sol, Júpiter,
Marte, Vênus e Mercúrio no analítico signo de
Virgem. No total, são dez planetas no mapa, cada um representando
uma faceta da vida, e Leminski tinha simplesmente a metade deles
no signo da destreza, do pensamento crítico (porém
sempre solitário) e da comunicação. Afinal
de contas, Virgem é regido por Mercúrio. Ou Hermes,
para os gregos. Para os íntimos, Exu, Capeta, Saci. Aquele
que troca um sentido pelo que ainda não foi dito. O que estou
querendo dizer, é que Leminski, assinalado pelo céu
astrológico, era a personificação deste mensageiro
dos deuses, que chamamos de Mercúrio na astrologia.
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Paulo
Leminski - 24.8.1944, 19h10 - Curitiba, PR - 25s25, 49w16.
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Hermes-Mercúrio-Saci é um deus muito
sacana. Filho da Noite com a Grande Luz, tinha a função
de levar recados a todos os cantos. Às vezes, a fúria
de Zeus, a ordem irrevogável de Hades, a paixão de
Vênus. Tinha o espírito traquinas da risada do Saci
depois de uma boa travessura. Como também assoprava palavras,
mensagens que, para bom entendedor, eram uma dádiva. Mercúrio
tem a alma amoral. Como poder andar, transitar onde for, levar recados
destinados, se não tiver um espírito também
maleável, com asas nos pés? Por isso era possível
encontrar o Paulo ali na esquina do Erudito com a Boca do Povo.
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Famoso,
respeitado, dono de um enorme prestígio, Paulo Leminski
realmente ampliou-se ao limite máximo e partiu em direção
ao "sonho de outras esferas". Viveu com a intensidade
de um samurai zen budista e construiu uma obra seguramente
inscrita definitivamente na pele da prosa e da poesia brasileira.
Poeta inovador, polemista irreverente, agitador imantado e
- fatalidade inquestionável - humano, atingiu uma luminosidade
extrema, como ele mesmo escreveu no poema "Sintonia para
pressa e presságio": "Eis a voz, eis o deus,
eis a fala,/ eis que a luz se acendeu na casa/ e não
cabe mais na sala".
(Ademir
Assunção, em artigo para o caderno Artes e Espetáculos
do Jornal da Tarde. São Paulo, 29/3/1991.)
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Leminski era cinco vezes a personificação
do Saci. Por isso, e também por seu Sol-Júpiter, que
o fazia exagerado, carismático, super-hiper-autoconfiante,
ele tenha tido a audácia de lançar, como seu primeiro
livro, o Catatau. Neste, o Kamiquase colocou Descartes com sua lógica
de régua e compasso fumando maconha tupiniquim. Descartes
perdeu a lógica e o texto, que partia de citações
da boca do povo, transmutando-se sobre si mesmo como quando se pensa
muito sobre uma coisa. Veja você: Saturno, o pai dos burros,
fura bolos com o mindinho de Mercúrio e mata piolhos a unha.
Ou: Vá em frente, eis o abismo. Coisas de Saci que luta judô.
Virgem tem esse humor. Humor negro e sacana. Chega
a ser marcial. É sua salvação. Até por
se levar muito a sério é preciso rir. E Leminski ria
alto. Mas não à toa!
Um saci virginiano
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